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Dólar tem a maior queda em nove anos após BC intervir

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Jornal O Tempo

Sábado, 9 de junho de 2018

Autoridade faz leilão e consegue desvalorização de 5,35%; intenção é minimizar efeito na inflação

A estratégia do Banco Central para acalmar o mercado de câmbio deu certo, e o dólar fechou em forte queda nesta sexta-feira (8), de 5,35%. Foi a maior desde 24 de novembro de 2008, ou seja, em meio à crise financeira mundial, período em que a autoridade monetária também atuou forte para conter a pressão no real. Depois de encostar em quase R$ 4 na quinta-feira (fechou em R$ 3,925), o maior nível em mais de dois anos, a moeda norte-americana terminou o dia em R$ 3,705 e zerou as perdas do mês. 

A alta do dólar é uma preocupação do Banco Central, por ter impacto na inflação. Isso acontece porque insumos e produtos importados ficam mais caros e tendem a ser repassados aos preços finais. Um caso clássico é a gasolina, pois a Petrobras segue as cotações internacionais, e dólar alto pressiona o preço aqui no Brasil.

A moeda norte-americana já abriu nesta sexta-feira em queda e seguiu assim o dia todo, refletindo a entrevista dada na noite de quinta-feira pelo presidente do BC, Ilan Goldfajn, que voltou a falar na sexta-feira em evento em São Paulo. Na entrevista, ele anunciou que a instituição vai colocar mais US$ 24 bilhões no mercado de câmbio até o final da semana que vem por meio de contratos de swap (leilões de contratos futuros em negociações externas feitas em dólares).

Além disso, desmentiu boatos de que deixaria o BC ou que haveria uma reunião extraordinária do Comitê de Política Monetária (Copom), além de descartar alta de juros para segurar o real. Na sexta-feira, o BC realizou o primeiro leilão extraordinário e injetou ao todo US$ 3,75 bilhões no mercado. “O BC mandou recado muito forte aos investidores. Ilan prometeu ontem e cumpriu”, disse o superintendente de câmbio da Correparti, Ricardo Gomes da Silva. 

Mas a trégua de sexta-feira pode não ser duradoura, e especialistas em câmbio alertam que o nervosismo pode voltar na semana que vem, que tem dois eventos importantes: a nova pesquisa eleitoral do Datafolha, que será publicada neste domingo (10), e a reunião de política monetária do Federal Reserve (Fed, o banco central norte-americano), que começa na terça-feira. Com crescimento de candidaturas que geram dúvidas nos investidores internacionais, como as de Jair Bolsonaro e Ciro Gomes, o resultado da pesquisa pode impactar o mercado. Já o Fed pode elevar juros nos Estados Unidos e estimular ainda mais a valorização da moeda norte-americana. 

Efeitos. O pão de sal é um exemplo claro de como o aumento do dólar pode impactar o dia a dia do brasileiro. Cerca de metade de todo o trigo usado no Brasil é importada. Se a moeda norte-americana sobe, o preço do pãozinho sobe junto, e a inflação também. Por isso o governo está tão preocupado em conter a disparada do dólar e já anunciou que não poupará esforços para intervir no controle cambial. 

Para o professor de economia da Fundação Getulio Vargas (FGV) Mauro Rochlin, os reflexos do câmbio alto vão variar de acordo com cada setor. “Quem importa vai precisar de mais reais para comprar dólares e insumos. É claro que isso impactará os preços. Em casos de consumo intensivo de importados, como o trigo, o repasse será imediato, pois todo mundo consome pão e macarrão. Nos combustíveis também, pois os preços estão atrelados ao mercado internacional. Em outros casos, vai depender se há margem do setor para repassar o aumento de custos”, avalia o economista. 

Bovespa. A queda de 5% do dólar não foi suficiente para incentivar uma recuperação no mercado de ações, e o Índice Bovespa caiu 1,23% na sexta-feira, aos 72.942.

 

Frete, aumento de energia e greve vão pressionar IPCA

A inflação já subiu. Depois de 0,22% em abril, o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) fechou o mês de maio em 0,40%. A disparada do dólar é só um dos componentes de um combo que promete fazer a inflação subir e a projeção de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) cair. Vem junto com os reflexos de dez dias de paralisação provocadas pela greve dos caminhoneiros, mais o aumento do frete, além do reajuste de energia, que foi de 35,5% para o setor industrial. “Tudo isso junto vão pressionar a inflação, pois vai aumentar os custos da cadeia produtiva, que vai repassar aos preços. O governo pode até não ter aumentado a carga tributária direta para o consumidor, mas a inflação é o pior imposto social, pois reduz a renda, faz o consumidor gastar menos e, assim, a indústria produz menos, investe menos e gera menos emprego”, afirma o economista da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg) Guilherme Leão.

Segundo o professor de economia da Fundação Getulio Vargas (FGV) Mauro Rochlin, só não será pior porque a demanda está desaquecida. “Podemos dizer que a retração da demanda vai amortecer o aumento da inflação, pois o setor produtivo não terá espaço para fazer grandes repasses de preços”, ressalta.

O pesquisador da Fundação João Pinheiro (FJP) Glauber Silveira afirma a greve vai impactar a inflação nos próximos meses, mas a meta anual de 4,5% ainda poderá ser alcançada. “Porém o crescimento do PIB certamente ficará abaixo do esperado”, ressalta.

Previsões

Inflação para 2018

Jan: 3,95%

Fev: 3,94%

Mar: 3,67%

Abr: 3,53%

Mai: 3,49%

Jun: 3,65%

fonte: boletim Focus BC